Li esta semana uma interessante entrevista concedida por Miguel Chalub à Revista Isto É. Ele falou sobre as muitas dores e dificuldades de ser humano, em sua condição de fragilidade e impotência diante de determinadas situações e de como negamos nossas dores, amortecendo-as com antidepressivos, ansiolíticos ou mesmo comida.
Somos testemunhas e atores de um tempo em que não se pode ser frágil - não por responsabilidade própria. Toda e qualquer fragilidade é culpa do Outro, seja lá quem for o outro. Nem mesmo nossa saúde é de nossa responsabilidade: "O médico me mandou tomar estes remédios", "o médico marcou minha cirurgia para quinta", "o médico me disse que preciso fazer cesárea"... E assim nos poupamos os fracassos, as frustrações, os riscos de assumir as rédeas da vida.
Desde a mais tenra idade, ensinamos à nossas crianças como se portar: bebês de 5 meses vão para o berçário, onde passam grande parte do tempo sentados em fila, presos às suas cadeirinhas musicais auto-balançantes, segurando - quando podem - suas mamadeiras cheias de leite artificial. Estamos dizendo à essas crianças que elas devem ficar quietas, ignorar suas necessidades de contato e aconchego e contentar-se com seus substitutos sintéticos.
A "política de boa educação" continua na infância e adolescência, quando os diagnosticados com TDAH são medicados para "pararem quietos", para tornarem-se socialmente adaptados... Não é de se admirar que hoje mulheres não consigam parir, não se permitam passar pelo espelho do auto-conhecimento para se reconhecerem mães... Os homens também têm suas dificuldades de relacionamento, buscando os mais superficiais, que oferecem menos risco de exposição. É uma sociedade doente, que aprendeu a engolir seus problemas, mas não pode digeri-los e assim, busca nas FLUOXETINAS da vida o remédio para suas dores.
"Quando um recém nascido aprende em um berçário que é inútil gritar... Está sofrendo sua primeira experiência de submissão e abandono." Michel Odent
A "política de boa educação" continua na infância e adolescência, quando os diagnosticados com TDAH são medicados para "pararem quietos", para tornarem-se socialmente adaptados... Não é de se admirar que hoje mulheres não consigam parir, não se permitam passar pelo espelho do auto-conhecimento para se reconhecerem mães... Os homens também têm suas dificuldades de relacionamento, buscando os mais superficiais, que oferecem menos risco de exposição. É uma sociedade doente, que aprendeu a engolir seus problemas, mas não pode digeri-los e assim, busca nas FLUOXETINAS da vida o remédio para suas dores.
Transcrevo abaixo alguns trechos da entrevista de Miguel Chalub, que pode ser lida na íntegra aqui.
ISTOÉ - Por que tantas previsões alarmantes sobre o aumento da depressão no mundo?
MIGUEL CHALUB - Porque estão sendo computadas situações
humanas de luto, de tristeza, de aborrecimento, de tédio. Não se pode mais
ficar entediado, aborrecido, chateado, porque isso é imediatamente transformado
em depressão. É a medicalização de uma condição humana, a tristeza. É
transformar um sentimento normal, que todos nós devemos ter, dependendo das
situações, numa entidade patológica.
ISTOÉ -
Por que isso aconteceu?
MIGUEL CHALUB - A palavra depressão passou a ter dois
sentidos. Tradicionalmente, designava um estado mental específico, quando a
pessoa estava triste, mas com uma tristeza profunda, vivida no corpo. A própria
postura mostrava isso. Ela não ficava ereta, como se tivesse um peso sobre as
costas. E havia também os sintomas físicos. O aparelho digestivo não funcionava
bem, a pele ficava mais espessa. Mas, nos últimos anos, a palavra depressão
começou a ser usada para designar um estado humano normal, o da tristeza. Há
situações em que, se não ficarmos tristes, é um problema – como quando se
perde um ente querido. Mas o homem não aceita mais sentir coisas que são
humanas, como a tristeza.
ISTOÉ -
A que se deve essa mudança?
MIGUEL CHALUB - Primeiro, a uma busca pela felicidade.
Qualquer coisa que possa atrapalhá-la tem que ser chamada de doença, porque,
aí, justifica: “Eu não sou feliz porque estou doente, não porque fiz opções
erradas.” Dou uma desculpa a mim mesmo. Segundo, à tendência de achar que o
remédio vai corrigir qualquer distorção humana. É a busca pela pílula da
felicidade. Eu não preciso mais ser infeliz.
ISTOÉ -
Ainda há preconceito com quem tem depressão?
MIGUEL CHALUB - Não. É o contrário. A vulgarização da
depressão diminuiu o preconceito, mas criou outro problema, que é essa doença
inexistente. Antes, a pessoa com depressão era vista como fraca. Hoje, as
pessoas dizem que estão deprimidas com a maior naturalidade. Não se fica mais
triste. Se brigar com o marido, se sair do emprego, qualquer motivo é válido
para se dizer deprimido. Pode até ser que alguém fique realmente com depressão,
mas, em geral, fica-se triste. O sofrimento não significa depressão. E não
justifica o uso de medicamentos.
ISTOÉ - Os
médicos não deveriam entender este processo?
MIGUEL CHALUB - Os médicos não estão isentos da ideologia
vigente. O que acontece é: você vem ao meu consultório. Eu acho que você não
está deprimido, que está só passando por uma situação difícil. Então, proponho
que você faça um acompanhamento psicoterápico. Você não fica satisfeito e
procura outro médico, que receita um antidepressivo. Ele é o moderno, eu sou o
bobão. Para não ser o bobão, eu receito um antidepressivo logo. É uma coisa
inconsciente.
ISTOÉ - Inconsciente?
MIGUEL CHALUB - Os médicos querem corresponder à demanda.
Senão, o paciente sairá achando que não foi bem atendido. Receitando um
antidepressivo, eles correspondem à demanda, porque a pessoa quer ser
enquadrada como deprimida. Mas há a questão dos laboratórios. Eles bombardeiam
os médicos.
ISTOÉ - A
ponto de influenciar o comportamento deles?
MIGUEL CHALUB - Se for um médico com boa formação em
psiquiatria, mesmo que não seja psiquiatra, ele saberá rejeitar isso, mas
outros não conseguem. Eles se baseiam nos folhetos do laboratório. Não é por
má-fé. Os laboratórios proporcionam muitas coisas. Pagam passagens, almoços,
dão brindes. O médico, sem perceber, começa a fazer o jogo. Porque me pagaram
uma passagem aérea ou me deram um laptop, acabo receitando o que eles estão querendo.
ISTOÉ -
O médico se vende?
MIGUEL CHALUB - Sim. Por isso é que há uma resolução da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibindo os laboratórios de dar
brindes aos médicos. Nenhum laboratório suborna médico, não que eu saiba, nem
vai chegar aqui e dizer: “Se você receitar meu remédio, vou lhe dar uma
mensalidade.” Mas eles fazem esse tipo de coisa, que é subliminar. O médico
acaba tão envolvido quanto se estivesse recebendo um suborno realmente.
ISTOÉ - Esse
lobby é capaz de fazer um médico receitar certo remédio?
MIGUEL CHALUB - Aí é a demanda e a lei do menor esforço. Se o
paciente chegar se queixando de insônia, por exemplo, o que o médico deveria
fazer era ensiná-lo como dormir. Ou seja, aconselhar a tomar um banho morno, um
copo de leite morno, por exemplo. Mas é mais fácil, tanto para o paciente
quanto para o médico, receitar um remédio para dormir.
ISTOÉ -
O que causa a depressão?
MIGUEL CHALUB - Esse é um dos grandes mistérios da
medicina. A gente não sabe por que as pessoas ficam deprimidas. O mecanismo é
conhecido, está ligado a uma substância chamada serotonina, mas o que o
desencadeia, não sabemos. Há teorias, ligadas à infância, a perdas muito
precoces, verdadeiras ou até imaginárias – como a criança que fica aterrorizada
achando que vai perder os pais. As raízes da depressão estão na infância. Os
acontecimentos atuais não levam à depressão verdadeira, só muito raramente.
Justamente o contrário do que se imagina. Mas mexer na infância é muito
doloroso. Não tem remédio para isso. Precisa de terapia, de análise, mas as
pessoas não querem fazer, não querem mexer nas feridas. Então é melhor colocar
um esparadrapo, para não ficar doendo, e pronto. É a solução mais fácil.
ISTOÉ -
Há quem diga que hoje a moda é ter um psiquiatra, não um analista. O que sr.
acha disso?
MIGUEL CHALUB - As pessoas estão desamparadas. Desamparo é uma
condição humana, mas temos que enfrentá-lo, assim como o fracasso, a solidão, o
isolamento. Não buscar psiquiatras e remédios. Em algum momento, isso pode
ficar tão sério, tão agudo, que a pessoa pode precisar de uma ajuda, mas
para que a ensinem a enfrentar a situação. Ensina-me a viver, como no filme.
Não é me dar pílulas, para eu ficar amortecido.
ISTOÉ - O
que é felicidade para o sr.?
MIGUEL CHALUB - A OMS tem uma definição de saúde muito curiosa:
a saúde é um completo estado de bem-estar físico, mental e social. Essa é a
definição de felicidade, não de saúde. Felicidade, para mim, é estar bem
consigo mesmo e com o outro. Estar bem consigo mesmo é também aceitar
limitações, sofrimento, incompetências, fracassos. Ou seja, felicidade também é
ficar triste de vez em quando.
Originalmente publicado em N° Edição:
2115 | 21.Mai.10 - 21:00 | Atualizado em 30.Set.11 - 14:24

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